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Racismo estrutural



Tudo que podia ser falado sobre o assassinato de João Alberto no Supermercado Carrefour de Porto Alegre já foi dito. Ou não?


Por primeiro: sim, foi devido à raça que isso aconteceu. Não nos enganemos: é impossível imaginar os seguranças fazendo aquilo à um homem branco. A cena simplesmente não se constrói na cabeça da gente.

Segundo: a questão da culpa. De quem é? Mais diretamente, em uma visão simplista, dos guardas. Mas vamos além: os guardas são funcionários terceirizados (portanto com vínculo de trabalho precarizado) do Carrefour.

O Carrefour é uma multinacional que está inserida no mundo globalizado, imbuída do discurso de competitividade para obter lucro. A empresa terceirizada que presta serviço, por sua vez, deve se alinhar a esse objetivo.

O lucro vem, entre outras coisas, da exploração da mão de obra e da preservação do patrimônio. A preservação do patrimônio, em tese, fala por si só “justificando” os atos dos seguranças.

A exploração da mão de obra, por outro lado, precisa ser um pouco mais desenvolvida.

É muito provável que a cultura organizacional do Carrefour privilegie as vendas – o aumento das vendas gerando lucro. E, possivelmente, dentro dessa premissa vale tudo.

Esse “vale tudo” (provável que muitos estejam lembrando da novela da Rede Globo) conforma pessoas no estreito molde do funcionário padrão*: que vende/empurra, concorda com tudo, faz que não vê muitas coisas e... não pensa pela sua própria cabeça.

E é aí que a exploração chega a seu nível máximo: não é só o corpo da pessoa que é explorado e “domesticado” para o trabalho – sua mente e seu coração também.

Onde entra o racismo aí? Entra no “vale tudo”, reforçando a ideia de alguém ser superior a outrem. É o ponto central da competição que vivemos hoje – alguém ganha, alguém perde: se consigo inferiorizar o outro pela cor da sua pele, já ganho pontos à frente, no mundo competitivo. **

Hoje é decisivo pensarmos que a precarização do trabalho, a exploração/domesticação do corpo e da mente do funcionário, a globalização, a competitividade e o racismo não acontecem por acaso.

Elas são parte do nosso sistema e da nossa cultura, que foi construída ao longo do tempo, em uma narrativa baseada no ponto de vista de quem detém maior poder na sociedade: os brancos.

E o mais importante: se isso foi construído, é possível construir de forma diferente: uma cultura inclusiva que tenha como valor central a vida humana.


*Padrão aqui não é usado no sentido positivo, mas no sentido de enquadrado dentro do molde da empresa.

**Se alguém tiver interesse de olhar a história da questão racial do sul norte americano, vai perceber que sua origem ocorre em uma disputa por terras. Finda a guerra da secessão, com a derrota do Sul, era necessário um programa de reconstrução que resolvesse a questão dos latifúndios, através de uma reforma agrária. As terras são desapropriadas e os bancos do norte as compram, para revender através de hipotecas. Os candidatos a essas hipotecas eram os brancos pobres e os negros libertos. Entretanto, os brancos se organizam rapidamente em sociedades de auxílio mútuo (que viram depois sociedades secretas como a KuKluxKlan) e fazem ações fora da lei (queima de propriedades, assassinatos, etc) para impedir que houvessem negros proprietários Tudo isso, obviamente, era sustentado por um discurso de superioridade/inferioridade racial. (fonte: aulas da disciplina História da América Contemporânea do curso de História da PUC-RS – 2018/2).


Claudia Hochheim Oliveira – Consultora em Gestão de Pessoas – A&C Consultores Associados

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