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Para onde as pessoas boas foram?

Atualizado: Jun 2

"Minha pergunta é a mesma, mas em outro cenário: Para onde foram todas as pessoas boas do/no mercado?"


Hoje lembrei dessa música do Jack Johnson (Good People), especialmente do refrão que ficava martelando na minha cabeça quando a música fez sucesso: “Where did all the good people go”. Numa tradução livre: Para onde todas as pessoas boas foram? Essa pergunta da música sempre me deixou intrigada. Hoje fui olhar a letra para entender do que se tratava: a letra traz uma crítica aos meios de comunicação, especialmente a TV, no sentido do excesso de conteúdo violento e da superficialidade das abordagens.

E aí Johnson pergunta: onde as pessoas boas foram, (subentendendo-se) que não aparecem nas mídias e na TV? Entendo aqui que ele fala sobre aquelas pessoas responsáveis, que querem trabalhar por um “mundo melhor” (em que pese que a concepção de mundo melhor pode ser muito relativa), que querem utilizar a informação a serviço da sociedade, e não exclusivamente dos ganhos.

Minha pergunta é a mesma, mas em outro cenário: Para onde foram todas as pessoas boas do/no mercado?

Por incrível que pareça, está muito difícil encontrar e contratar um bom colaborador. Os motivos são vários, mas o que mais tem me chamado a atenção é o baixo nível dos candidatos. Nesse sentido, estamos vivendo em uma sociedade “de cegos”, onde quem tem um olho é rei.

Há algum tempo já venho lendo notícias sobre o apagão de mão de obra no Brasil. Mas, confesso, sempre achei exagerado. “Mesmo com a disponibilidade de mão de obra decorrente do desemprego que aflige 1 a cada 10 brasileiros, metade das indústrias brasileiras (50%) afirma ter dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados no mercado.” * Hoje estou na dúvida se há mesmo exagero.

Muitas pessoas poderão argumentar que essa matéria citada no parágrafo acima foi publicada no pré-coronavírus e que, portanto, não retrata a realidade de um futuro a curto e médio prazo. Que a crise econômica gerada pela pandemia vai disponibilizar muita mão-de-obra, aumentando exponencialmente o desemprego. Entretanto, mesmo durante a pandemia - onde todos só falam em demissão - existem empresas contratando. Em tese, hoje existe muita mão de obra disponível, mas, pasmem, na hora de recrutar e selecionar em vários níveis – operacionais ou não, tem-se muita dificuldade de encontrar bons profissionais.

Parece que as maiores dificuldades estão nas duas pontas: nos níveis mais operacionais e nos níveis mais técnicos, tecnológicos, com maior nível de educação formal.

Vou falar um pouco do nível operacional, que é aquele que ultimamente tenho andado em busca. Olhando os vários sites que disponibilizam currículos, já na pré-seleção tem-se dificuldade. Muitos não possuem a escolaridade exigida pelo cargo.

Quando possuem a escolaridade, foi cursada em regime de EJA (Educação de Jovens e Adultos) – o antigo “Supletivo”, onde praticamente não existem aulas, somente provas. Ou seja, o processo educacional mesmo (aula, leitura, dúvidas e etc.) não existe. Dia desses, meu critério para contratar uma candidata precisou ser o fato dela ter cursado Ensino Médio de forma regular.

Ok, a opção acabou sendo baixar a exigência de educação formal. Ao invés de Ensino Médio completo, poderia ser “cursando” ou mesmo ter apenas o Ensino Fundamental. É o que tem se feito. E inicia aí um prejuízo para a empresa.

Porque a educação formal faz diferença. Sinto urticária quando ouço um jovem ou um adolescente falando: “Mas onde vou usar isso no futuro?” – referindo-se a alguma matéria específica que está aprendendo na Escola. Confesso que fico com muita raiva! Não interessa se vai usar, a educação não pode e não deve ser utilitária ou pragmática, ela é formativa e constitutiva do ser, da pessoa.

A educação, no seu processo, vai desenvolver várias competências: de conhecimentos, de habilidades e de atitudes. Vai desenvolver a capacidade de pensar abstratamente, de construir hipóteses, de planejar, de pensar sequencialmente e etc. E isso é um conjunto, permeado pelo conteúdo, que é uma base genérica possível para futuras construções mais específicas do conhecimento. O conteúdo é o fim, mas também o meio ou, melhor dito, o conteúdo não é um fim em si próprio.

Bem, mas seguimos. Precisamos contratar, a empresa está precisando, os que lá estão encontram-se sobrecarregados de tarefas e o proprietário quer contratar, precisa expandir. Bom, aí acontece algo raro: o candidato tem a escolaridade! E cursou o Ensino Fundamental e Médio regularmente. Aleluia! Aí aparece o terceiro problema comum: a qualidade da educação. Já encontrei candidatos que se dizem “profissionais” e que não conseguem escrever. E não é que escrevam errado. Não conseguem escrever: não articulam um pensamento com início, meio e fim; não tem habilidade para concatenar ideias ou colocar fatos em sequenciamento cronológico. Aparece aí o analfabetismo funcional, quando a pessoa até sabe ler, mas não consegue interpretar e, menos ainda, redigir. **

A precarização da educação e o empobrecimento da população são as bases desse apagão, em minha opinião. Infelizmente as empresas recebem colaboradores com capacidades rasas, com pouco ou quase nenhum conhecimento e com o intelecto parcamente desenvolvido. Muitas vezes a empresa tem que formar esse colaborador. Entretanto, essa formação é limitada ao que a empresa precisa que ele aprenda. Dito de outra forma: é treinamento, e não qualificação ou capacitação.

Como consultora em Gestão de Pessoas, sempre argumento com meus clientes sobre a importância e relevância do estudo formal, buscando construir na empresa políticas de incentivo ao colaborador que se dispuser a continuar seus estudos. Muitas vezes o empresário não quer: também ele considera estudo uma perda de tempo. Mas, ironia do destino, tem dificuldade de entender quando seu colaborador não consegue desenvolver além do básico no seu cargo.

E assim ficamos com um imenso exército de desempregados, com baixa empregabilidade e qualificação de um lado; e, de outro, empresas que buscam no mercado colaboradores já a altura do cargo, mas não disponibilizam subsídios para o desenvolvimento de empregados que estão dispostos a voltar aos estudos.

Solução? A curto e médio prazo, nenhuma. Investimento em educação, além de precisar de recursos, é ação que tem retorno a longo prazo. Se começássemos hoje, como país, a próxima geração é que colheria os frutos, não nós. E, infelizmente, não estamos vendo começo nenhum...

Assim como está se falando de ano perdido pelo coronavírus, e também já ouvi década perdida pela crise temos uma geração também perdida que, infelizmente, vai ficar se debatendo de emprego em emprego, sem conseguir se fixar e/ou se desenvolver em alguma área ou empresa. Seja pelas constantes dificuldades da economia do Brasil permanentemente em crise, seja pela baixa qualificação e consequente desestímulo individual dessas pessoas.

Claro que sempre haverá um ou outro fora da curva (seja para baixo, seja para cima). Nosso desafio como gestores de pessoas será encontrar os fora da curva (que normalmente não ficam à disposição no mercado) e/ou encontrar aqueles passíveis de serem desenvolvidos e investir recursos, tempo e paciência neles.

Nosso desafio como cidadãos é lutar, incessantemente e com todas nossas armas, por recursos para educação, porque é só dessa forma que é possível desenvolvê-la.

*https://www.poder360.com.br/economia/metade-das-industrias-reclama-que-falta-mao-de-obra-qualificada-no-brasil/

**https://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional

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